Quote 18 Apr
Um pouco
do mar,
do ar,
do sal.
No teu ato incantatório desejar,
seu sal, seu ar, seu mar.
—  ”Aspirar” - Lilian M. Anjos MAR/2012
Audio 7 Apr [Flash 9 is required to listen to audio.]

“Bolinha” música feita sob encomenda pra uma gata fora do comum. Melodia de Lilian Marques dos Anjos e orquestração de Lau Marques.

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Text 4 Apr MOSAICO

Os olhos perderam o contorno corpóreo do oásis beduíno. Porém desde sempre treinados a lidar com ilusões quase fatais seguem em caravana, buscando um pequeno paraíso na terra. Mesmo que iludidos a esperança ainda existe, mais resistente e etérea.
Sou menos obvia do que a especulação diz, não sou séria, brava, ou ressentida, antes pertenço a uma espécie hibrida de singelezas que juntas são tão complexas quanto qualquer vida. Um ponto no espaço não é definível senão por convenção, eu sou um ponto inconvencional.
Jogo com a vontade de enlaçar momentos perfeitos todos os dias, vôo por meio de um sorriso, uma conversa longa, coincidências que nunca são apenas coincidências, tem uma razão qualquer de ser e vou voando até perceber que estou na cama devaneando sobre um alguém que em poucos minutos, me inebriando possivelmente sem a menor intenção, possui toda a minha atenção.
A vida não é algo comum como parece, o cotidiano é uma forma que inventamos de estabelecer a familiaridade com o mundo, e sempre que possível ele mostra que construímos vidas frágeis sendo que a única coisa solida é justamente o que não se vê, os sentimentos verdadeiros. Por esses eu luto, na certa são recompensa dada a poucos, erroneamente muitas vezes.
Erros são lamentáveis porém não podemos extermina-los por muitos motivos, o grande mal no erro é pegar gosto em cometer um atrás do outro, desperdiçar chances, prejudicar a si e outros.
No entanto, assim as coisas são, um momento feliz a não poder dizer, outro onde tudo parece estar contra si, até si próprio. Eu me seguro como posso nessa montanha-russa, esperando rir na hora do medo e mais na euforia. Não sei muito, mas quero aprender, tropeço e logo levanto, amo e logo canto aos ventos, desamo e então volto a amar, fico brava e geralmente perdôo.
Vivo aos poucos pra não gastar e saboreio cada pedaço-dia, não julgo os outros, não minto pra mim, não tento ser mais do que sou, não uso pessoas como roupas, não cedo a rótulos, não finjo amar, amo a quem meu amor quiser se dar.

Text 4 Apr QUEM É VOCÊ?

As ideias sao engraçadas, vão se multiplicando como ervas daninhas por todos os lugares possíveis atiçando o cérebro. Abafamos suas tentativas de dialogo como se fossem aquele vizinho incoveniente. É o que muitos acreditam, só que elas na verdade são mudas de árvores para florestar o Eu e torna-lo um ecossistema mais equilibrado.Consideramos absurdas certas ponderações ou assuntos atípicos que nos ocorram, nos acostumamos a existir e as vezes esquecemos que também temos que ser.Mas sempre somos, não?
Sim, na maioria das vezes somos apenas pessoas que respondem ao que fomos condicionadas, que não se espantam com nada, tudo é perfeitamente cabível na nossa realidade. Aceitamos tudo que possa vir a acontecer só pra não precisarmos bater de frente com a realidade para a qual abaixamos a cabeça. Não se vive enquanto não há entrega pro mundo e suas chagas, sentir o vento, o perfume, a dor, a felicidade, o amor, a revolta, a impotência e a luta.
A vida é uma eterna incompletude interior que nao deve ser ignorada ou tapeada com entretenimento barato e rotina, não é justo não se dar o melhor da vida. Tenha orgulho de se construir, reformar, mudar de lugar, dar uma demao de tinta as vezes. Somos nossas obras de arte e claro, o resultado dela é exposto pro mundo. O que você quer ser: um cabide de supermercado ou um kandinsky genuíno?

Text 4 Apr CAMAFEU VAZIO



Quando o sol vai alto,
só a poeira chega aos olhos.
Ao poente das esperanças
ele apenas se desenha tracejado
na penumbra
que é o instante de agora
e toda continuidade.

Sem ter desfrutado da presença
sente-se falta da mornidão
do afago e gestos identitários.

Sabe-se do amor potencial
e nas maravilhas que pode
se transformar, com o movimento
da Terra e dos astros,
dos olhares, corpos a dançar,
lábios e melodia, passos e paixão.

Text 4 Apr ” ETA VIDA BESTA, MEU DEUS”

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

De Alguma poesia (1930) “Cidadezinha qualquer”

A qualquer dia, qualquer hora, podemos chegar a essa conclusão. Vejam vocês, a tantos dias tenho posto um poeta na cabeça e dele encomendei um livro, não conto o nome, ontem poderia ter chegado, mas não estava na caixa do correio, na verdade creio que nem caberia, mas eles tinham que fazer caber.

As provas vem a galope e eu finalmente inclinei-me aos estudos, fiz um grande empréstimo na biblioteca e abarrotada de livros na bolsa e descida do ônibus dirigi-me pra locadora garantir o respiro do feriado. Saí de mãos dadas com Welles, Kubrick, Eastwood e Allen. Como era parte do caminho lembrei das pilhas, as do controle remoto do dvd, não sei porque fazer um aparelho que não serve pra absolutamente nada, a não ser compor a paisagem, sem o controle. Ele tinha pilhas. Desaconselhou o uso de pilhas de marcas conhecidas. Quis ver o tal do controle remoto. Continuei indo pra casa, nem percebi o tamanho da minha passada preguiça, procrastinei semanas pra andar um quarteirão para saber o diagnóstico da coisa.

Na caixa do correio comunitária procurava contas atrasadas, uma janela é fechada rente ao meu ouvido, não vizinha não enxergo com a orelha, não me interesso pela sua vidinha, não se dê tanta importância. Um papel incomum está dobrado, é dos correios, meu nome, entrega não efetuada do dia anterior. Outro papel mais ao fundo, tambem dos correios, entrega de hoje, dez minutos atrás, voltarão no proximo dia util, tarde demais, preciso dele pra fazer um trabalho urgentíssimo! Pensei em correr pelos quarteirões, seria inutil. Já em casa ligo em vão pro numero do papel. Arrumo meu almoço colorido e ponho no copo o suco de uva com gosto de babaloo sabor uva, não deveria ser ao contrário?

Arrumo uma bolsa com carteira, celular (kit básico) e o controle remoto, a chave mestra do dvd, de saída a janela da birrenta da vizinha tornou a se abrir. Virando à esquerda uma kombi amarela (na minha opiniao a combinação ideal pra ser notada) do SEDEX está parada em frente a uma casa, que tem o quintal cinquenta centímetros sobre a calçada, além de uma rampinha sinuosa que leva à porta. A carteira carrega uma caixa quadrada e toca a campainha sem sucesso, varias idéias chegam até as amígdalas e se amontoam esperando serem escolhidas e expulsas à luz.

Perguntei se ela passara na minha rua algumas horas antes, ela disse você é a Lilian? Sou. Você tem um documento aí? Tenho. Bom, só tinha cartões, ela aceitou, disse que já aconteceu de se passarem pelo destinatário, é um absurdo, por isso possível. As pessoas gostam de contrariar. O pacote de papelão que delineava levemente o livro estava em minhas mãos, queria voltar pra casa rasgá-lo e ler, ler e ler. Mas como tinha filmes pra ver tambem, continuei e alguns passos a frente me fizeram chocar com este verso do Drummond “Eta vida besta”, o “meu Deus” não veio no pensamento original. A moça dentro da kombi dobrou a rua e disse tchau Lilian, sorrindo.

Entreguei o controle pro moço, ainda estou sem ele, o caso deve ser grave. Então voltando pra casa, peguei a tesoura e olhei pro invólucro e fiz do momento um ritual, entre meu desejo e a coisa desejada, a tesoura inocente na história fez o que lhe competia, cortou sem cerimônia. Ali o livro, depois nas mãos, começei pela orelha, depois a outra orelha e então passei a mão nos cabelos, por mechas, depois me atentei pra alguns fios especificamente e ainda diria que talvez faça tranças.

Text 4 Apr ANESTESIA


Não basta ter que ir ao dentista, ele tem que usar a anestesia, ele começa com uma pomadinha que deixa a gengiva semi-adormecida, disfarçadamente evita-se olhar pra baita seringa com o líquido do vexame público, a picada é quase indolor, minutos depois a região ainda formiga e a ansiedade vem: será que eu to com muita cara de idiota olhando pro dentista, to babando muito, a boca ta torta? Parece que além de ter perdido metade da boca e queixo, tocando parece que estão inchados. Ele pergunta sobre a faculdade e é dificil falar com os musculos dopados, mas ele entende. Dou tchau e até desejaria um adeus, quem quer voltar no dentista se sempre vem más noticias junto? Teria que voltar algum dia. Espera-se o elevador, não é necessário dizer que quer ir pro terréo, resolve-se tudo com aceno de cabeça, o saguão, a rua, próxima do Lgo. São Francisco, minha boca ta torta? Tento colar de um jeito que não pareça careta, porque super bonder não faz parte do kit de maquiagem?! A fome bate, já sao 15h, vou pro shopping comprar algo pra comer em casa, meus labios se desprendem, e agora? Olho pra baixo, pago pra entrar no banheiro, por que não ando com espelho na bolsa? Ok, encontrei a posição padrão, mas terei que pedir o lanche, o subway deveria funcionar como o Mc, vc faz um numero com a mão eles dão o lanche e você paga, tem coisa mais moderna?! Eu pedi meu lanche e meu estomâgo me disse que não ia esperar, peguei-o e fui comer numa mesa afastada e solitaria até o momento em que cheguei lá, as pesoas apareceram por geração espontanea! E eu ainda sentei embaixo de uma filmadora, super confortavel, pelo menos não comi um pedaço da minha língua, é um consolo, o molho apimentado quase deixa a boca toda dormente, um arraso, quando dava as ultimas mordidas sentia que voltava a ter uma boca completa. Fiquei boba!

Text 4 Apr ESTADOS

eu, com tantas raízes aprofundadas
enlaçadas e desencontradas no solo.
eu, sentada sob o sol vendo a nuvem

passar.


andando e desmontando os passos
desconstruindo meu sentido
desarmando o segredo
da realidade
girando o rosto em volta
o olhar dissimulado, as rédeas soltas

eu, mexendo as ideias com um canudo
acabando com o corpo de fundo
sorvendo o suco, imberbe?

passando os dias, colhe(ra)ndo as noites
purpúreas
ar de serenatas, planos pra dois
entradas e saídas.

Eu sou a porta?


dar as costas contra o imã,
em seguida surpresa

perder-se com os braços
esquecer o corpo, levar-se

atingir-se como raio,

preencher
deixar-se borbulhar
e vapor ar

E

cOndensAR-se,

cheio,

folha ao vento.

Quote 3 Apr
Bolinha não te perca na minha memória, fique sempre à vista, a casa, o jardim, o outono, o verão é tudo seu. Tem comida de todo jeito, inclusive pra caçar em grande variedade, aí os anos não te pesam e também há outros animais pra brincar. O colo do meu pai, meu cabelo molhado, peles cheias de creme cheiroso pra você lamber. Capô de carro quentinho no frio, minha pele pra cravar as unhas quando sentir medo ou estiver brava comigo. Tem sofás amplos pra dormir em círculo e depois espichar todo corpo com a minha ajuda, espreguiça e sacode. Como é educada tem privada e ralinho para as necessidades.
Eu aceitarei sua prestatividade em subir no meu colo quando perceber que estou triste. Também prometo catar suas pulgas que são poucas, pois seus banhos são muito eficientes. Além disso, sempre vai ter carninha fresca pra você comer e faço questão de cortar, mesmo sabendo que geralmente não me meteria nisso. Tentarei não ceder à vontade de segurar sua língua de um lado lixa do outro lisinha só pra importunar.
Como não lembrar que foi mãe e eu vi todas as suas ninhadas nascerem? Sempre me procurou pra enfermeira, fiquei contigo no leito torcendo pra dar tudo certo. Cedo dei mais valor à vida, amiga. Vi como era dedicada mãe, se sentia que poderíamos prejudicar seus pequenos colocava-os na boca e escondia em alguma brecha, coração de mãe faz tudo.
Mas então por que não lembrar que você foi nossa companheira de vida porque um belo dia sua mãe, uma gata linda que chamei de Sara, quis me seguir até em casa. A partir daí cuidamos dela e na ninhada que nasceu, você foi a única sobrevivente, sua mãe teve um morte trágica e te adotamos.
Crescemos junto uma da outra, brigamos, saímos ofendidas, mas superamos tudo. O que espero superar agora é a sua falta, o vazio de chegar em casa e não te ver. Sempre me sentia realmente em casa ao te ver felinamente majestosa. Agora se foi a referência, mas que fique circulando na memória, marcas tenho daquele arranhão que fez na minha mão sem querer. Eu aprendi com você o espírito da liberdade, fazer o que realmente se quer. Você tinha muito de humana e eu um pouco de gato.
Não a esquecerei por mais que jamais tenha dito uma palavra, soube ser sensível, se fazer presente, agir amorosamente dentro do seu instinto. Essa é minha humilde homenagem à felina que não esquecerei,
Adeus Bolinha!
— “Bolinha” ANJOS,Lilian. 02-04-2012
Quote 24 Mar
Não pode deixar de notar seu próprio rosto, pequeno e aceso. Com ele distraiu-se um instante, esquecendo a raiva. Justamente sempre acontecia uma pequena coisa que a desviava da torrente principal. Era tão vulnerável. Odiava-se por isso? Não, odiar-se-ia mais se já fosse um tronco imutável até a morte, apenas capaz de dar frutos mas não de crescer dentro de si mesma. Desejava ainda mais: renascer sempre, cortar tudo o que aprendera, o que vira, e inaugurar-se num terreno novo onde todo pequeno ato tivesse um significado, onde o ar fosse respirado como da primeira vez. Tinha a sensação de que a vida corria espessa e vagarosa dentro dela, borbulhando como um quente lençol de lavas. Talvez se amasse… E se, pensou longinquamente, de súbito um clarim cortasse com seu som agudo aquela manta de noite e deixasse a campina livre, verde e extensa… E então cavalos brancos e nervosos com movimentos rebeldes de pescoço e pernas, quase voando, atravessassem rios, montanhas, vales… Neles pensando, sentia o ar fresco circular dentro de si próprio como saído de alguma gruta oculta, úmida e fresca no meio do deserto.
— 
 LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem, Rio de janeiro: Rocco, 1998 (p. 80)

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